Monday, February 19, 2007

Choques estéticos

Esta é uma daquelas expressões pelas quais nos apaixonamos de tempos em tempos... na época do Festival do Rio e Mostra de SP, fiquei usando ela aqui e ali, porque me parece melhor pra representar os filmes que REALMENTE mexem comigo do que aquele papo de "obra-prima" - afinal este termo tem significados demais atrelados a ele, e como muita gente usa tão a torto e a direito, eu mesmo já nem sei mais se ele significa alguma coisa.

meus choques estéticos andam raros, mas confesso que houve dois recentes:

- o primeiro, ver Miami Vice, o filme (****) - em DVD. o que foi um choque acima de tudo porque eu tenho a maior dificuldade de me entregar a um filme visto pela primeira vez na telinha de casa - tanto que tento fazer isso o mínimo possível, e neste caso foi por uma necessidade mesmo. mas o filme me deixou verdadeiramente transtornado frente ao que eu assistia, e confesso que cheguei a chorar junto com a personagem da Gong Li na cena em Cuba (veja, não chorei porque ela chorava, as lágrimas correram junto mesmo, foi bizarro). o que isso fez, mais do que mudar radicalmente minha lista dos cinco melhores do ano passado (ciao, Moretti, mai ti amo!), que tinha sido a razão de eu ver o filme agora, foi mudar minha impressão sobre o DVD como formato. talvez eu só estivesse dando isso de desculpa pra um monte de filmes que eu achava que deviam mexer comigo, mas não conseguiam...

- Opening Night, de Cassavetes (****), que é um destes filmes que me faz querer jogar fora mesmo a tal da "obra-prima", porque pra mim a expressão faz pensar em perfeição, em completude, e estas são palavras que eu simplesmente não encaixo no filme do Cassavetes. o filme está muito mais pra um choque que pra uma "obra-prima", e foi a sensação física de um choque que eu tive na sequência final toda, onde cai o mito do "free cinema" do Cassavetes (afinal, ela vai revelando quão programado eram todos os "improvisos" pra que a força de clímax dramático se revele naquela noite de estréia do título) ao mesmo tempo que a mistura do teatro com o cinema é onde melhor eu vi funcionar até hoje o cinema do Cassavetes (o que era Faces se não um grande teatro?). e o filme ainda me fez pensar como O Quadrado de Joana (**), do Tiago Mata Machado, mal arranha o tema da questão da construção de personagem e do conceito de representação.

3 Comments:

Blogger Rodrigo de Oliveira said...

Sobre essa coisa do DVD, para além dessa questão do "déficit de impressionabilidade" em relação à experiência do cinema, fico pensando se a culpa não está mesmo no jeito que o Mann usa o digital de maneira tão... tão... digital. Isso aconteceu comigo com o "Colateral", que vi duas vezes no cinema e tinha gostado bastante, mas que só passei a amar quando revi em DVD, como se ali fosse o espaço de direito daquelas imagens. Ainda tô pra rever o "Miami Vice" em casa, mas imagino que deva rolar algo assim (com a diferença que esse eu amo já desde a primeira vez).

Duvido que consiga me envolver tanto com o último filme de Straub/Huillet, o "Quei Loro Incontri", numa projeção em cinema do mesmo modo que me envolvi quando vi no DVD. E imagino o tamanho da porrada que não levaria numa revisão de "O Mundo" ou do "Still Life" nesse mesmo esquema...

Pô, eu adoro o DVD.

5:12 PM  
Blogger Eduardo Valente said...

rodrigo

o Cléber me disse ontem mesmo que eu tinha que ver o filme em tela grande por causa dos grãos, e eu até acho que vai ser uma experiência legal sim, mas concordo plenamente com vc sobre o digital no filme.

eu acho que é um filme pra ser visto em suporte digital - ainda que fosse melhor numa tela enoooorme.

12:53 PM  
Blogger Eduardo Valente said...

ah, sim: na edição de novembro da Cahiers tem um belo texto (não lembro de quem, tô sem ela aqui) sobre o digital e seus usos em quatro filmes, dos quais dois são Miami Vice e Be With Me.

bem legal o texto.

12:55 PM  

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